Entrevista

 “O jornalista tem que ter em mente que ele presta serviço para os outros assim como os padres”

 Por : Filipe Chicarino

Quarenta anos de profissão. Um dos mais importantes jornalistas do Brasil. Foi repórter de diversos veículos como: Jornal do Brasil, Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, Época IstoÉ, TV Globo e SBT . Foi assessor de imprensa do presidente Luis Inácio Lula da Silva nos dois primeiros anos de governo. Vencedor de 4 prêmios Esso de Reportagem, o mais importante do jornalismo brasileiro. Escreveu diversos livros, entre eles “A Prática da Reportagem” que há 20 anos é usado nos principais cursos de jornalismo em todo o país.

Recentemente, uma reportagem que fez para o jornal Folha de S.Paulo em 2001, virou filme nas mãos do renomado cineasta Walter Salles. O longa “Linha de Passe” foi premiado no festival de Cannes com Sandra Corveloni, que foi ganhadora da Palma de Ouro de melhor atriz.

Atualmente é repórter da revista “Brasileiros” e escreve para o blog “Balaio do Kotscho” no portal IG.

O repórter que adora pronunciar a frase do escritor colombiano Gabriel Garcia Marques O jornalismo é a melhor profissão do mundo, fala sobre o cinema nacional, a realidade social do país e também sobre os blogs e a internet. Sendo assim, aproveite!

 IC – Na sua coluna do IG, você disse que o diretor de cinema Walter Salles comentou que você era o responsável pela história do filme premiado no festival de Cannes “Linha de Passe”. Como foi isso?

 RK – Em 2001 fiz uma reportagem que fiz em 2001 na Folha de S. Paulo sobre um menino de 12 anos que roubou um ônibus e andou muitos quilômetros pelas ruas de São Paulo até a policia o pegar. Walter Salles leu a matéria e achou que aquilo dava um filme. Ele me ligou, mas eu tinha até esquecido, pois levou anos para ele fazer o filme. Recentemente me mandaram um convite para a pré-estréia do filme, ele disse a todos que estavam lá que eu era o responsável pelo filme.

Isso me deixa muito feliz, pois já aconteceu outras vezes de algumas reportagens que eu fiz inspirarer filmes e peças de teatro. Acho que isso é muito importante, pois o jornalismo é uma coisa que acaba no dia seguinte, quando o jornal vai para o lixo, agora as boas reportagens acabam ficando por meio dessas obras.

 IC – Os filmes brasileiros que têm recebido boas críticas no exterior são os que ilustram a realidade social do país. Quais os caminhos que você acredita que o Brasil deve trilhar para que seja mudada essa realidade?

 RK – Já esta mudando. A realidade social do Brasil que sempre foi dramática, é hoje diferente do que foi antigamente. Acho que o país vive seu melhor momento. O cinema como o jornalismo, tem mesmo que mostrar a verdadeira realidade, mas já está na hora de fazer uns filmes com histórias felizes, pois no Brasil não tem só desgraça.Se continuar assim, quem está fora do país vai continuar achando que aqui só tem desgraça, e não é bem assim. A verdade, é que existe um processo de transformação muito forte no Brasil principalmente na área social.

 IC – Ainda falando de cinema, você disse em sua coluna que tem saudades dos filmes do Oscarito, Grande Otelo e Mazzaropi. Por quê?

 RK – Eu comentei esses dias com o Bruno Barreto [cineasta] que cinema também é diversão e que nós não podemos esquecer disso. Não é só falar de problemas, pois as pessoas vão ao cinema para se divertir. É mesma coisa que acontece com o jornal, se o leitor pegar um jornal e ler apenas notícias ruins, desgraças e tragédias, o camarada termina de ler e em seguida dá um tiro na cabeça. Precisamos mostrar o conjunto da realidade brasileira, o que tem de problema e o que tem de coisas boas.

E é por isso que eu gostava muito dos filmes do Oscarito, Grande Otelo e Mazzaropi, pois mostravam um Brasil mais alegre.

 IC – Você falou de noticias ruins, desgraças e tragédias, você acredita que é esse tipo de noticia que atrai o leitor?

 RK – Eu acho que não. Está caindo à circulação dos jornais. A audiência dos telejornais também vem caindo, eu acho que saturou. Houve um momento em que exageraram sempre para esse lado negativo. Eu percebo durante as minhas viagens que já não existe mais aquele hábito de todo mundo a noite assistir ao telejornal. As pessoas estão assistindo outras coisas ou nem estão assistindo mais televisão. Eu acho que isso precisava ser repensado.

 IC – Temos cada vez mais cadeias lotadas, presos aguardando julgamento, processos paralisados em virtude da lentidão da justiça e injustiças freqüentes principalmente nos crimes envolvendo pessoas de colarinho branco.

O que poderia ser alterado no atual sistema judiciário brasileiro.

 RK – Acho que deveria mudar tudo. O poder judiciário brasileiro é o mais complicado, mais atrasado, mais injusto. Creio que deva existir uma reforma radical no poder judiciário o mais rápido possível. A justiça no Brasil só funciona para quem tem dinheiro para contratar um bom advogado e isso não pode continuar.

 IC – Depois de toda a crise envolvendo o Lula no primeiro governo, hoje sua aceitação perante a opinião pública só tem aumentado. O que mudou?

 RK – Olha, isso é um processo. Eu tenho conversado sempre com o presidente e ele está muito feliz com o que está acontecendo. São 5 anos e meio de mandato e em 2003 assumimos o governo, quando trabalhei na Secretaria de Imprensa da Presidência, nós encontramos uma situação muito difícil. Não dá para enumerar, mas o Brasil estava numa situação econômica e social caótica. É claro que no começo até você aprender a manejar todos os instrumentos do governo acabada demorando um pouco, mas acho que ele plantou certo e esta colhendo agora.

 IC – Você acredita que o jornalismo está implicado diretamente com o nível de educação do país?

 RK – O jornalismo tem influencia em todas as áreas, pois nós contamos o que está acontecendo. Eu não saberia te responder se ele ta implicado diretamente na educação, mas eu acho que a internet que é uma revolução na comunicação humana contribui com a educação. Ela faz com que aumente cada vez mais o número de pessoas conectadas e tendo acesso a mais informações. Hoje temos mais de 40 milhões de brasileiros conectados a rede, e isso é a grande mudança que está acontecendo em nosso meio.

 IC – Atualmente os mais importantes jornalistas do país, têm feito uso de blogs para comentar as notícias do cotidiano e com você não é diferente. O que você tem a dizer da manifestação dos jornalistas por meio dos blogs?

 RK – O que está havendo é uma febre de blogs tem blogs demais. (Risos). Todo mundo tem um blog, daqui a pouco vai ter mais blogs do que leitores. Agora é uma contradição, pois o IG me convidou para fazer o blog [Balaio do Kotscho] e eu aceitei, porque não podemos remar contra a maré e esse é o caminho. Também é uma forma de democratizar a informação, porém acho que está havendo um exagero. Agora eu prefiro ser repórter e fazer uma boa reportagem, mas se a clientela quer isso nós temos que fazer. (Risos)

 IC – Você também trabalha como repórter na revista “Brasileiros”, uma revista nova. Como está a aceitação dos leitores nesse novo trabalho?

 RK – Olha a aceitação está muito boa, principalmente dos leitores mais jovens. Estamos recebendo muitos e-mails e cartas de estudantes de jornalismo e de outros cursos também. Agora o que está difícil é a aceitação da publicidade, pois vivemos de anúncios e atualmente 99% da verba de publicidade vai para os grandes veículos e ai sobra 1 % para milhares de publicações e nós temos que brigar por um pedacinho disso.

 IC – No seu livro “A prática da reportagem” você diz que o jornalismo é uma opção de vida.

O que o jornalismo têm de diferente de outras profissões?

 RK – Eu acho o jornalismo muito parecido com o sacerdócio. Eu estudei em colégio de padre e o meu teste vocacional deu que eu tinha vocação para o sacerdócio. O jornalista está sempre a serviço dos outros. Na maioria das profissões você está a serviço de você mesmo, do seu salário e do seu bem estar. É claro que o jornalista precisa de salário e de bem estar, mas acho que o jornalista tem que ter em mente que ele presta serviço para os outros assim como os padres.

 

 

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One Comment em “Entrevista”

  1. Elisangela Says:

    A entrevista com o Kotscho valeu! Sobre o Judiciário precisar de uma reforma concordo plenamente. Não dá pra pensar só em construir mais presídios ou criar pulseiras eletrônicas, que tratam paleativamente a questão.


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