Espaço Literário

A Prática da Reportagem

Por: Michely Ribeiro

 Segundo Ricardo Kotscho, em seu livro “Prática da Reportagem”, o bom repórter é aquele que vive nas ruas, que busca a notícia, ou seja, é aquele que vai ao encontro dela ao invés de esperar as coisas acontecerem e “caírem do céu”.

Esse livro é composto de trechos publicados na década de 70 e 80 por Kotscho na Folha de São Paulo, entre outros jornais onde ele trabalhou. Cada trecho é tido como exemplo de explicações referentes ao mundo jornalístico, de um repórter, mais especificamente.

A pauta é o que há para Kotscho. Ele diz ser ela o elemento mais importante para o trabalho de um jornalista. É suscetível a mudanças devido às oscilações existentes nos acontecimentos diários. Afinal, tudo muda constantemente.

Portanto, o jornalista deve ser flexível quanto a uma cobertura jornalística, deve usar de sua magnitude a fim de observar tudo o que acontece ao redor, além da matéria na qual foi escalado para cobrir.

O perfil mais ousado é o que mais sucesso faz. O repórter deve ser ousado. Kotscho frisa bastante essa questão. Diz que nenhuma história pode ser igual a outra em matéria de jornal. Cada ser humano é composto por  uma ideologia e ponto de vista diferentes. Portanto, a tomada de posição deve ser isenta de medos. A coragem é a característica que deve predominar nessa carreira.

Para que o resultado saia da maneira esperada e quase perfeita, (já que a perfeição não é característica inerente ao homem), o profissional do jornal deve procurar sempre se colocar no lugar do leitor. Dessa forma, ele visualiza a objetividade do jornalista impressa em determinado veículo.

Ricardo ainda relata a importância do diferente, do novo. O novo sempre fascinou, portanto chama a atenção e multiplica o número de exemplares vendidos. “Mostrar algo de novo que está acontecendo”, esta é a chave para o sucesso.

O autor nunca esteve sozinho ao longo de sua carreira. Sua companhia sempre foi a de um fotógrafo, porque repórter e fotógrafo devem ser amigos fiéis. Não existem provas concretas de determinados acontecimentos, sem uma fotografia que o defina.

Jornalista sofre com “plantões de domingo” e feriados. São nesses dias que o desafio aumenta devido a fatos corriqueiros existentes e que todos já conhecem. O desafio se baseia em encontrar a notícia perfeita que faz a diferença.

“…contar tudo o que aconteceu, não parando de garimpar a informação enquanto ele próprio não estiver absolutamente seguro sobre todos os fatos que colocará no papel”, essa é a experiência que Kotscho relata em uma afirmação no capítulo “Coberturas”. Nem sempre o que se deseja se concretiza, tanto na vida pessoal, quanto no ramo profissional. Essa profissão repórter exige muito do jornalista que acaba por sofrer intensas pressões acarretando alguns tipos de doenças como se vê muito. Entre elas está a depressão, ataques cardíacos, entre outras. Por isso a necessidade de se dedicar inteiramente , de corpo e de alma ; mas, para que isso ocorra, se faz necessária a paixão por essa tão exigente profissão.

O autor jornalista ficou um tempo no exterior cobrindo matérias para o Jornal do Brasil: “Canale D´Agordo – Só os vaticanistas, a Igreja e o resto do mundo foram surpreendidos com a eleição de Albino Luciani  para suceder Paulo VI.

É esta, ao menos, a conclusão a que se chega, após uma rápida viagem pela Veneza dos Papas, ( Luciani é o terceiro Papa vêneto, só neste século) e uma tarde de conversas com alguns moradores de Canale D’Agordo, pequena aldeia onde Albino nasceu. Entre eles, seu irmão mais novo, Edoardo Luciani, pai de nove sobrinhos do novo Papa”.  (Jornal do Brasil, jul. 1978)

Kotscho fala da difícil tarefa que foi cobrir as greves do ABC paulista na volta ao Brasil, a partir de 78: “Quando a Polícia resolve baixar o pau, não adianta mostrar carteirinha de jornalista. Um belo dia, depois das greves, Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, e outros líderes dos trabalhadores iam ser julgados pela Justiça Militar. O comando do II Exército forneceu credenciais para todos os jornalistas que pediram para fazer a cobertura – menos para os correspondentes estrangeiros e para mim.” Percebe-se com isso que não é nada fácil ser jornalista. Mas, apesar disso, há aquelas situações as quais pode-se aproveitar para tirar proveito a fim de elaborar uma boa matéria. Nessa situação, por exemplo, em que Kotscho não conseguiu credencial, ele podia encontrar um fato noticioso onde não esperava, (e foi o que aconteceu). Vida de repórter é uma bela de uma “caixinha de surpresas”.

Por maior que seja a imparcialidade que tenha que se ter durante a elaboração de uma matéria, não se pode esquecer da existência de um ser humano entre as entrelinhas. “Estes sentimentos se alternam nos trabalhos de cobertura, e não há como o repórter ficar insensível – nem deve. Afinal, ele é antes de mais nada um ser humano igual aos seus leitores, e precisa transmitir não só as informações, mas também as emoções dos acontecimentos que está cobrindo.”, afirma o autor.

Em seu livro, retrata de maneira rápida, alguns fatores da reportagem investigativa. Tratando da existência de duas frentes de luta, de reportagens quentes e dos fenômenos com suas respectivas causas.

Os perfis são o que os jornalistas chamam de retratos de pessoas altamente conceituadas pela mídia, famosas, que acabaram de morrer. Estas precisam ser relatadas no jornal com suas biografias, é a esse aspectos que se dá o nome de perfil. Não somente se denomina perfil às pessoas que acabaram de morrer, mas às que estão em vigor na mídia, ou seja, que precisam serem  estudadas a fundo juntamente com o perfil biográfico.

Além desse tema, Kotscho esclarece em sua obra o verdadeiro enfoque social na Editoria de Polícia, diversos assuntos que são tratados sobre a fome, o fator da “Guerra urbana”, e a dúvida sobre contar ou não uma história real.

Por fim, intitula a grande reportagem como “as matérias mais extensas que procuram explorar um assunto em profundidade, cercando todos os seus ângulos.”

“Prática da Reportagem” é uma completa apostila de jornalismo para os que iniciam nessa carreira tão instigante. Ricardo Kotscho foi feliz ao relatar experiências próprias profissionais em um livro didático e que inspira um espírito aventureiro jornalístico.

 

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