Resenha

Arte e Mídia

Nº de Páginas:84

Autor: Arlindo Machado

Editora: Jorge Zahar

Ano 2007

Por: Lauren Moraes

 Arlindo Machado possui graduação em Letras Português e Russo pela Universidade de São Paulo (1977), mestrado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1983) e doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1987). Já publicou, certamente, mais de 30 livros, dirigiu curtas metragens e participou de mostras de arte eletrônica no Brasil e exterior. Dentre suas façanhas mais admiráveis, está a fundação, ao lado de Marcelo Masagão e Caio Magri, da chamada Rádio Xilik, uma rádio livre localizada no interior da PUC-SP nos anos 80.  Atualmente é professor doutor da Universidade de São Paulo e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Artes e Comunicação, com ênfase em Estética e Linguagem do Vídeo, atuando principalmente nos seguintes temas: artes eletrônicas, arte e tecnologia, vídeo-arte, imagem eletrônica, teoria da comunicação e televisão de qualidade. Seu campo de pesquisas abrange o universo das chamadas imagens técnicas, ou seja, as imagens produzidas através de mediações tecnológicas diversas, tais como a fotografia, o cinema, o vídeo e as atuais mídias digitais.

Quando nos referimos à artemídia, ou mídia-arte, há pelo menos duas concepções diferentes. Uma coisa é pensar na arte dos clássicos renascentistas até os modernos, e o artista como aquele que se apropria de uma tecnologia destinada à produção de mídia que não foi concebida para a produção de arte. Câmeras ou computadores não foram feitos para artistas produzirem arte, eles simplesmente se apropriam dessas máquinas e descobrem nelas possibilidades diferentes. Outra coisa diferente disso é a nossa visão com a mídia, tal como ela foi construída, e entendê-la como expressão da cultura de nosso tempo, como forma de produção de arte. Por exemplo: assistir a um videoclipe transmitido pela MTV e encará-lo como uma forma de produção de arte de nosso tempo. São duas coisas diferentes, em que uma é o artista que vem de fora da mídia e entra na produção – ele se apropria da mídia e faz dela uma utilização diferente do que a mídia normalmente faz. Outra coisa é encarar a mídia e encará-la como forma de produção artística. São duas coisas diferentes, que tanto podem ser complementares como divergentes. Às vezes, uma pessoa pode falar de artemídia e o que ela entende por isso é o que ela vê na mídia.

Com isso Arlindo Machado em seu livro Arte e Mídia busca esclarecer a inserção desse novo conceito de arte na vida atual. Já na parte introdutória encontramos um significado para o vocábulo “artemídia”, que está sendo usado nos últimos anos para designar formas de expressão artística que se apropriam de recursos tecnológicos das mídias e da indústria do entretenimento em geral, ou intervêm em seus canais de difusão para propor alternativas qualitativas.

O primeiro capitulo, Arte e mídia: aproximações e distinções, apresenta a arte produzida com os meios de seu tempo e mostra, portanto, que as artes midiáticas representam a expressão mais avançada da criação artística atual, é aquela que melhor exprime sensibilidades do homem do inicio do terceiro milênio. Os profissionais da área devem ultrapassar os limites das máquinas semióticas e reinventar radicalmente os seus programas e suas finalidades. Um verdadeiro criador em vez de simplesmente submeter-se às determinações do aparato técnico, tem que manejá-lo no sentido contrário ao de sua produtividade programada.

A artemídia, como qualquer área fortemente determinada pela mediação técnica, coloca o artista diante do desafio permanente de, ao mesmo tempo em que se abre às formas de produzir do presente, contrapor-se também ao determinismo tecnológico, recusar o projeto industrial já embutido nas máquinas e aparelhos, evitando assim que sua obra resulte simplesmente numa aprovação dos objetivos de produtividade da sociedade tecnológica. O artista busca se apropriar das tecnologias mecânicas, audiovisuais, eletrônicas e digitais numa perspectiva inovadora, fazendo-as trabalhar em benefício de suas idéias estéticas.

Pode-se dizer que a artemídia representa hoje a metalinguagem da sociedade mediáticas, na medida em que possibilita praticar, no interior da própria mídia de seus derivados institucionais, alternativas criticas aos modelos atuais de normatização e controle da sociedade.

Em nosso tempo, a mídia está permanentemente presente ao redor do artista, despejando seu fluxo contínuo de sedução audiovisual, convidando ao gozo do consumo universal e chamando para assim o peso das decisões no plano político. É difícil imaginar que um artista sintonizado com seu tempo não se sinta forçado a se posicionar com relação a isso tudo e a se perguntar que papel significante a arte pode ainda desempenhar nesse contexto.

Talvez possamos com proveito aplicar à arte produzida na era das mídias o mesmo raciocínio que Walter Benjamim aplicou à fotográfica e ao cinema: o problema não é saber se ainda cabe considerarmos “artísticos” objetos e eventos tais como programas de televisão, uma historia em quadrinhos ou um show de uma banda de rock.

O público dessa nova arte é cada vez mais heterogêneos, não necessariamente especializados e nem sempre se dão conta de que o que estão vivenciando é uma experiência estética. À medida que a arte migra do espaço privado, passa a ser fruída por massas imensas e difíceis de caracterizar muda de estatuto e alcance, configurando novas e estimulantes possibilidades de inserção social.

Cabe aos profissionais da área decidirem se querem aderir a esse novo modelo de arte. O que ocasiona duas correntes de artistas; aqueles que se apropriam de todas essas conquistas tecnológicas, mas continuam dentro do circuito clássico de arte, ou seja, continuam utilizando os serviços de museus, galerias, e continuam pertencendo a um universo que tradicionalmente nós delimitamos para a difusão da arte. E aqueles que se inserem por um completo na produção midiática, não fazem mais nada em galeria e vão para a televisão, Internet, ou seja, vão trabalhar em uma outra dimensão, atingindo dessa forma um outro tipo de público, que não é o público tradicional da cultura artística.

Na segunda parte, Tecnologia e arte: como politizar o debate, a grande presença dos computadores à nossa volta, o estabelecimento da internet, os avanços da biotecnologia, as inovações tecnológicas. À medida que o mundo natural, tal como o conhecer as gerações de outros séculos, vai sendo substituído pela tecnosfera – a natureza criada ou modificada pela ciência-, novas realidades se impõem.

 As novas tecnologias, associadas ao projeto de globalização, adentraram os espaços do planeta e vêem interferindo na vida de todos os povos até mesmo os mais isolados. Mas essas novas tecnologias não promoveram um avanço democratizante, universalizando as riquezas produzidas, gerando o crescimento material e cultural de todo planeta. A grande aceleração tecnológica modificou o ritmo de nossas vidas, exigindo atualizações cada vez mais rápidas, além de proverem um risco ao ambiente em que vivemos.

Há um predomínio no universo das artes eletrônicas ou das poéticas tecnológicas, um discurso legitimador, alheio aos riscos que a adoção de uma estratégia de aceleração tecnológica comporta. Para Martin Barbero a tecnologia foi se convertendo em um novo campo de utopias, que doutrinas mais variadas vislumbraram nas maquinas e nos algoritmos perspectivas de emancipação, progresso e felicidade coletiva que antes estavam circunscritas no discurso político.

O inglês Roy Ascott, afirma que a internet está produzindo uma “consciência planetária”, em que o navegante da rede não é mais um mero espectador passivo, ao contrário, ele se multiplica pelos nós da rede e se distribui por toda parte criando assim uma espécie de consciência coletiva.

Nos últimos anos, temos visto multiplicarem-se em todo mundo, os festivais e mostras dedicados a experiências de inserção da arte com a tecnologia e a ciência. Cada vez mais, artistas lançam mão do computador para construir suas imagens, músicas; o vídeo é agora uma presença quase inevitável em qualquer instalação.

Com o boom das tecnologias eletrônicas, a arte parece ter se reduzido ao uma espécie de perícia profissional, à medida que a habilidade técnica foi tomando o lugar das atitudes mais radicais.

 Essa visão é simplista, pois a arte sem o aparato técnico não sendo reduzida, mas sim se tornando “rara” e evoluindo de alguma forma. Um bom exemplo é a fotografia, uma vez que em tempos passados não era possível modificar o seu aspecto. E hoje, com a adesão do computador e de programas especializados como o Photoshop, podemos fazer mudanças radicais.

 Essa inovação, porém, apresenta dois lados, o positivo de se poder adaptar a foto ao seu gosto, e o negativo, em que pode ocorrer a falsificação e dessa forma mudar o contexto da foto.

Por isso é importante a discussão apresentada na ultima parte do livro, Convergência e divergência das artes e dos meios. Já que vem debater se é vantajoso haver a convergência ou não dos campos.

Se imaginarmos cada campo – fotografia, cinema e música – como um círculo, eles iriam se interagir e com o passar dos anos se aclopariam uns aos outros. Já para McLuhan que era capaz de pensar os meios como um todo, tomava-os, todavia, como separados. Cada meio para ele era extensão de um dos nossos sentidos ou aptidões.

No campo da comunicação, chega um momento em que a divergência entre os meios torna-se improdutiva, limitativa e beligerante, deixando claro, pelo menos ao certo de vanguarda, que a melhor alternativa pode estar na convergência.

As imagens agora são mestiças, ou seja, são compostas de fontes as mais diversas – parte é fotografia, parte é desenho, parte é vídeo e outros. Cada plano é agora um híbrido, em que já não se pode determinar a natureza de cada um de seus elementos constitutivos, tamanha é a mistura, a sobreposição, o empilhamento de procedimentos diversos, sejam eles antigos ou modernos, sofisticados ou elementares, tecnológicos ou artesanais.

Essa ocorrência é uma realidade que está presente cada vez mais nos atuais, visto que é natural essa convergência dos campos. Sabe-se que o cinema deriva da fotografia por essa razão a união é inevitável.

A obra trata da grande globalização que a arte está sofrendo com o passar dos anos, uma vez que o surgimento de novas tecnologias ocorre em demasia e está sendo acoplada a ela. Por se tratar de um assunto atual, não é necessário grande conhecimento sobre o assunto, porém, como já citado existem hoje conferências e mostras para divulgar esse novo ramo da arte.

 Muitos são os estudos que estão seguindo esse mesmo pensamento e fazendo estudos sobre o contexto em que a arte e a mídia estão inseridas. Um exemplo disso é a Mostra de Vídeo Português, criada em 1994 com a necessidade de abertura ao nível da divulgação do audiovisual português. Com a explosão da utilização do suporte vídeo na ficção, bem como com o aumento substancial da produção documental em Portugal, a Videoteca criou espaços específicos para estes trabalhos. Fala-se do Panorama (Mostra do Documentário Português) e da Mostra de Curtas (que abriu a sua programação às curtas de ficção produzidas em vídeo em 2005). Estes eventos específicos permitiram então à Mostra de Vídeo a sua própria especificidade, libertando-a da responsabilidade de representar um local onde simplesmente se podia ver o que não passava em mais lado nenhum.

Em contraposição a esse novo empreendimento, temos como exemplo o leilão de obras de artes realizados em Nova York. Uma coleção de obras de arte do século XX alcançou preços recordes no leilão da Christies, em Nova York. A tela de Miró “Portrait de Madame K” alcançou um valor estimado de US$ 12 milhões 650 mil, quase o dobro do preço base.

Outra peça que fez sucesso foi o quadro “Tete de Femme”, de Picasso, vendida por quase US$ 5 milhões. Parte da renda vai beneficiar um fundo da ONU para crianças. Isso nos revela que mesmo com essa inovação, as pessoas não esquecem das outras obras, àquelas feitas apenas com tela, pincel e tinta. Aliás, pagam caro para tê-las.

O autor, Arlindo Machado, não faz uma conclusão clara, visto que sempre aponta os aspectos da tecnologia em relação à arte nos dias de hoje. Não deixa claro seu ponto de vista, sempre mostrando as vantagens e desvantagens da artemídia. Suas opiniões são apresentadas ao longo do livro e não ao final de cada capítulo. Com uma linguagem correta e de fácil entendimento, o estilo dado ao livro é objetivo e preciso. Há um equilíbrio na disposição dos capítulos de forma lógica e é dirigido a especialistas da área e estudantes do ramo.

Mas a idéia de que se possa fazer arte nas mídias ou com as mídias é uma discussão que está longe de ser matéria de consenso. De uma forma geral, os intelectuais de formação tradicional resistem à tentação de vislumbrar um alcance estético em produtos de massa, fabricados em escala industrial. No seu modo de entender, a boa, profunda e densa tradição cultural, lentamente filtrada ao longo dos séculos por uma avaliação crítica competente, não pode ter nada em comum com a superficial e descartável produção em série de objetos comerciais de nossa época. Já os defensores da artemídia costumam ser menos centrados e mais espertos. Para eles a idéia de que a demanda comercial e o contexto industrial não descridibiliza a criação artística, a menos que identifiquemos a arte com o artesanato ou com a aura do objeto único. No entender destes últimos, a arte de cada época é feita não apenas com os meios, os recursos e as demandas dessa época, mas também no interior dos modelos econômicos e institucionais nela vigentes, mesmo quando essa arte é francamente contestatória em relação a eles.

Muito embora ocorra uma grande contribuição para os estudos dessa área, o livro não é de um linguajar cativante e não consegue prender a atenção do leitor no caso de estudantes e outros, mesmo se tratando de um assunto polêmico e inovador: a influência da tecnologia na arte.

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